Pedagogia

"A Educação é a arma para libertar a humanidade e livrá-la do sofrimento causado pela ignorância e outros males sociais." "A Educação é a única e mais poderosa ferramenta para capacitar o ser humano para a vida." "A escola não existe para os professores, e sim para os alunos." Tais citações são algumas das diretrizes do meu Mestre, Daisaku Ikeda. Acredito que o ato de educar decorre do acordo entre os sujeitos, todos aprendentes, em prol do autoaprimoramento.

Reflexões a partir da Educação Indígena

Por  Benedita Aparecida de O.Miranda, Claudete Ribeiro Freitas Monteiro, Julio Cesar da Silva, Monize Caroline P.Câncio, Renata Rocha Silva.
Questionamentos das concepções culturais e pedagógicas das práticas docentes: a educação indígena e a educação da “sociedade envolvente”.
Atividade preparada pelo Prof Henrique Viviane, sob a coordenação da Professora Patrícia Segura, aos alunos do Curso de Pedagogia da FISA.



EDUCAÇÃO INDÍGENA

Proposições para reflexão sobre a prática educativa

Educador

Ser educador na sociedade contemporânea é muito mais complicado que em qualquer outro momento histórico.

Educando

O educando, como o educador, é caracterizado pelas múltiplas determinações da realidade, ou seja, é um sujeito ativo que, pela ação, ao mesmo tempo se constrói e se aliena. Ele é um membro da sociedade como qualquer outro sujeito, tendo caracteres de atividade, socialidade, historicidade, praticidade.

O educando é um sujeito que necessita da mediação do educador para reformular sua cultura, para tomar em suas próprias mãos a cultura espontânea que possui, para reorganizá-la com a apropriação da cultura elaborada.

Ele é possuidor da capacidade de avanço e crescimento, só necessitando para tanto da mediação da cultura elaborada, que possibilita a ruptura com o seu estado espontâneo.

É sujeito a condicionantes: econômicos, culturais, afetivos, políticos, etc.

Educação Indígena – comparativos à educação na ‘sociedade envolvente’.

Segundo o Professor João[1], o Pajé e o professor têm quase a mesma importância dentro da aldeia, consideradas as vantagens atribuídas ao pajé pelo respeito às questões espirituais a este atribuídas. Dado de extrema relevância, dele decorrem algumas questões, como seguem:
  
1. Qual o papel do professor?

Segundo a FUNAI, vivem hoje no País cerca de 460 mil índios, distribuídos em 225 sociedades indígenas que representam 0,25% da população.

O MEC, visando assegurar a educação indígena, estabeleceu princípios a partir da Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena (composto em grande maioria por representantes das nações indígenas), e homologado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE): localizar-se na área das aldeias, oferecer ensino bilíngue (em língua portuguesa e na língua do povo em questão), respeitar o calendário indígena da comunidade, apresentar conteúdo que tenha ligação com a cultura deles e, principalmente, dialogar com a comunidade, entre outros.

Para educadores e ativistas, a educação indígena avançou bastante na última década, mas ainda existem questões de extrema complexidade - como a discussão do currículo, que deve acompanhar os anseios e projetos de cada povo. Como cada um deles tem sua cultura, costumes e língua, fica praticamente impossível criar um conteúdo único a ser ensinado. "Acho difícil falar de uma única escola, pois temos realidades muito distintas. Temos muitos contextos", explica Jackeline Rodrigues, da Universidade São Francisco. "Não acredito em um currículo único."

Desta concepção de currículos diversos, construídos a partir dessas sociedades e não pelos órgãos governamentais, pesquisadores defendem que as comunidades sejam protagonistas da escola. "Os índios devem aprender o que é necessário ao desenvolvimento dos seus projetos de vida. Eles não são isolados da sociedade. Ao contrário, precisam dela", ressalta Judite de Albuquerque, assessora pedagógica para formação de professores da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro.

Segundo defensores da educação indígena, o papel do professor é muito complexo. "A tarefa é muito mais complexa que a de um professor ocidental", explica a pesquisadora Onilda Sanches Nincão, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, arrematando:

 "O professor indígena é um articulador entre a aldeia, a comunidade e a sociedade, e um articulador entre os conhecimentos locais e universais, estes cada vez mais demandados pelas comunidades locais."

O papel social do professor indígena, conforme depoimento do Professor João Lira, membro da sociedade indígena Guarani Aldeia Uruity e Diretor de Escola Indígena no município de Iguape/SP, aproxima-se da figura do Pajé e reveste-se de forte simbolismo sem que haja a chamada “iniciação mística” a qual o líder espiritual – o Pajé – tem junto aos membros da aldeia; assim, o respeito dedicado pelo grupamento humano ao Professor colabora para o processo educacional e para o desempenho em sala de aula dos alunos.

A partir de outras perspectivas, ou metas educacionais, as ações do professor dependem das propostas pedagógicas “oficiais” adotadas e nelas atrelam-se o papel do professor, visto que a Educação – no Brasil, ao menos – é item de política pública governamental e se mantém submissa às implicações e práticas de Governo, em seus diversos níveis, escopos e modalidades. Entre os ‘escopos’ está, por exemplo, a adoção ou não de cartilhas, cadernos ou livros ‘oficiais’ que atrelam a ação do professor àqueles conteúdos, ideologias e discussões implícitas, quando muito.

Nesta abordagem, do processo de contínua discussão da Educação Indígena pelo MEC, o maior ganho para Educação, não somente a Indígena, mas para a Brasileira, está no fato que a Educação dos povos Indígenas é construída a partir dos seus próprios processos culturais, com respeito às etnias e, sobretudo, com o assegurado direito de que as sociedades ‘minoritárias’ construam sua própria identidade curricular e pedagógica.

O papel do professor na educação indígena, portanto, é de relevante ponte cultural entre a “sociedade ‘branca’ envolvente” e tem a missão de assegurar que a aquela cultura, ainda que minoritária, não desapareça mediante a forçada integração construída ao longo dos séculos.

2.     Em que momento histórico a importância do nosso professor passou à “invisibilidade”?

Um das questões que cercam a profissão do professor é a concepção, construída socialmente, de que seu trabalho é raramente reconhecido e que seus pares educadores são lembrados apenas quanto aos fracassos da prática escolar.

Tal ‘invisibilidade’ decorre do contexto de ação dos educadores que não são notados, respeitados ou valorizados plenamente pela sociedade e seus governos. Alguns fenômenos observáveis evidenciam tal invisibilidade, principalmente a relação professor-aluno em grande maioria das escolas; alguns professores acabam por buscar em sala atitudes ríspidas e autoritárias para que sejam ouvidos ou respeitados, que seja.

Outro aspecto é ligado à gestão escolar; a construção de propostas, por vezes, partem dos interesses dos alunos ou dos pais, ou pior, de educadores cujo ponto de observação – o seus olhares – têm como referências estatísticas, seus gabinetes, e que geralmente pouco vão a escola desconhecendo métodos, técnicas e ações pedagógicas. Em sua maioria, os pais responsabilizam os educadores em caso de insucesso de seus filhos, ocorrendo acusação e questionamento da ação pedagógica, da mesma forma as diversas instituições governamentais com relatórios anacrônicos e estatísticas frias, pois isentos da percepção da humanidade que cerca a ação educativa.

Culto aos erros e descrédito dos acertos

À invisibilidade dos educadores, somam-se o cenário caracterizado na falta de espaço para divulgação de atividades ou ações pedagógicas de êxito ou que merecem reconhecimento, o que faz com que compreendamos que mostrar a desgraça da escola é sempre objeto de sucesso midiático ou de geração de debates ou questionamentos.

Aparentemente, há uma sistemática ‘oficial’ adotada para que a sociedade tome aos professores como pessoas de menor importância; há perspectivas pelas quais nota-se que um povo mais letrado, que saiba tratar ao menos em parte às milhares de informações hoje disponíveis, pode afetar o equilíbrio de poder permanência de grupos no poder ou, pior, não se dão conta do processo de alienação a que foram sujeitados ao longo dos tempos. Por outro lado, muitos professores no passado recente (até meados da década de 80) eram respeitados apenas pelo fato de que estavam diante dos alunos com seus “apetrechos pedagógicos” e a “obrigação social” desses sujeitos-aprendentes (naquela concepção, apenas o aluno) era a de escutar, ler, acolher o que lhe era ‘dado’ como se a construção do conhecimento dependesse necessariamente da figura do professor, e o professor em sala aparentemente tinha efetivo ‘poder’ sobre os alunos.

A necessária união de propósitos

A época avançou, a democratização restou como fenômeno observável e prescrito pela Constituição Federal, a sociedade brasileira integrou-se à sociedade de informação e o panorama do aluno é outro. Qual a perspectiva de aprendizagem, se considerado tais características? Pergunta ainda sem resposta, da qual só há indícios e outros questionamentos; mas há um caminho a seguir, e passa pela construção do próprio professor como alguém que pode, a partir de si mesmo, despertar nos alunos o desejo de construírem (juntos, e não mais a partir dele próprio, e em acordo entre pessoas) a aprendizagem enquanto processo social e não como algo decorrente dos saberes do professor. O ‘saber do professor’, necessário para a mediação – é a expectativa de grande parte dos alunos e deve ser assegurado pelo professor em sua contínua e necessária autoconstrução.

"Ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinho, os homens se educam em comunhão." (Paulo Freire).

O ato de educar necessita da visibilidade de ambos – do professor e do aluno – é imprescindível um ‘acordo’ entre os esses sujeitos aprendentes e cabe ao professor estabelecê-los, pondo fim à tal “invisibilidade”, rompendo falso e inoportunos grilhões. Podemos construir pontes, calcadas no diálogo, em prol do ato de educar.

3.     Quem evoluiu mais? A sociedade do homem branco “sociedade envolvente” ou àqueles que nos deram origem?

Ambos evoluíram em acordo com as suas concepções de modo de vida; não existem parâmetros que não nos seja havido a partir de uma leitura etnocêntrica da realidade, para se responder a tal questão. Se por um lado, ao longo desses mais 500 anos, a a Revolução Mercantil, a Industrial, a Tecnológica e mais tarde, ainda em curso ou início, a Revolução Informacional, possibilitou a cultura “envolvente” domínios e ações que facilitam um modo de vida, tais avanços foram contrabalançados pelo distanciamento entre os seus membros; as pessoas tornaram-se ilhas e pouco se constrói de forma coletiva, muito pouco se respeita o semelhante e suas indivualidades, e menos ainda se constrói a favor da união de propósitos. Cada tipo evoluiu à sua maneira, mas o indígena, sob a perspectiva das relações humanas, foi muito mais eficiente em preservar características necessárias aos grupamentos humanos e o ‘bem viver social’.

4. Quais as relações possíveis de se estabelecer entre as questões culturais e educacionais enfocados por João em sua palestra e a atual ação educacional e cultural em nossa época?

Às sociedades originais, remanescentes do início da invasão européia às Américas, foi dado o pior tratamento possível, historicamente, e, afora o extermínio físico da população, seguimos agindo por séculos em prol à destruição de suas culturas. Por sorte, não foi suficiente para a destruição total de aspectos importantes, entre eles a perspectiva do ‘bem comum’ da propriedade, da exploração sustentável das florestas e entorno ambiental, evidenciando importantes lições à nossa cultura.

Assusta, no entanto, que a relação entre os povos ‘brancos’ e brasileiros originais seja balizada pela máxima de Cabral e sua expedição, a prática de trocar bugigangas por tesouros; atualmente, buscamos neles valores sociais que a nossa cultura perdeu, ao tempo que lhes oferecemos celulares, medicação sintetizada a partir dos saberes e plantas deles, e demais artefatos tecnológicos, que nem sempre são saudáveis às pessoas, à solidariedade e à vivência harmônica em comunidade.



[1] Professor João Lira, membro da sociedade indígena Guarani Aldeia Uruity e Diretor de Escola Indígena no município de Iguape/SP. - Conheça seu trabalho em http://guaraniuruity.wordpress.com/

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